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A imigração na Europa - artigo de opinião do Jornal da Madeira - (27-08-2017)


27-08-2017

27-08-2017

O Programa de Recolocação da União Europeia (UE) foi lançado em Setembro de 2015 e previa a recolocação de 160 mil requerentes de asilo num prazo de 2 anos. De acordo com os últimos dados, apenas 24 676 requerentes deixaram os centros de processamento em Itália e na Grécia. Desses, Portugal recebeu 1 400. Encontramo-nos ainda longe dos 4 569 que a UE atribuiu ao nosso país e mais ainda dos 10 mil a que o Governo português se disponibilizou.

Em Julho a Comissão Europeia anunciou também a abertura de processos por infracção contra a República Checa, a Hungria e a Polónia por não estarem a cumprir as suas obrigações legais em matéria de recolocação. Não podemos admitir que países europeus não desenvolvam quaisquer esforços para a resolusão de um problema que é de todos. A solidariedade europeia e o respeito pelos direitos humanos são um marco desta União e assim deve se manter. Por outro lado, continuam a ser precisas vias legais e seguras de acesso para os refugiados e requerentes de asilo, auxiliando os países na primeira linha de acolhimento e combatendo o lucrativo negócio dos traficantes de seres humanos.

A UE precisa dos imigrantes. A experiência portuguesa mostra-nos que a imigração pode ser um importante instrumento na ajuda ao desenvolvimento, favorecendo tanto o paí­s de destino, como o de origem e o próprio imigrante. A Europa está a envelhecer e, sem imigração, estará condenada do ponto de vista demográfico e laboral. A Comissão Europeia alerta há vários anos para a necessidade de 50 milhões de trabalhadores nas próximas três décadas. Sem eles, a população europeia terá de trabalhar mais e pagar impostos mais elevados para conseguir financiar o sistema de pensões e de segurança social.

Nos últimos 30 anos, a Alemanha perdeu meio milhão de habitantes. Em alguns paí­ses da Europa de Leste a situação é catastrófica: a Lituânia perdeu mais de 700 mil, a Bulgária 1,2 milhões e a Roménia 2,8 milhões. Se excluirmos a imigração, mais de metade dos paí­ses da UE estaria a perder população, incluindo Portugal.

Continuando a actual tendência demográfica, um terço dos europeus terá mais de 65 anos em 2050 e apenas uma oitava parte terá idade inferior a 15 anos. Há 20 anos a idade média europeia era de 36 e em 2050 poderá chegar aos 50 anos. Um salto de 14 anos em meio século. Nenhum paí­s europeu apresenta um índice de fecundidade que permita a substituição geracional (2,1). Eslováquia, Espanha, Grécia, Hungria, Polónia e Portugal estão abaixo de 1,4. Este é o retrato europeu.

Ainda assim, a imigração continua a ser um dos tópicos favoritos dos populistas, quase sempre com propósitos eleitorais e ignorando o facto da economia da UE precisar renovar a sua força de trabalho. Os mais diversos actores económicos têm expressado as suas preocupações acerca da escassez de trabalhadores e da sustentabilidade económica da UE. No seu relatório de Abril, o Banco Central Alemão avisou que o envelhecimento da população irá afectar a economia na próxima década. Acrescenta inclusive que a imigração não será suficiente para solucionar o problema, uma vez que se estima que o número de pessoas em idade activa diminuirá em 2,5 milhões até 2025. Emma Bonino, antiga ministra dos negócios estrangeiros italiana, alertou também que o seu país irá ressentir-se sem o influxo da força de trabalho imigrante. 160 mil imigrantes terão de ser recrutados a cada ano apenas para manter o equilíbrio. Também a Agência Nacional de Emprego da Suécia anunciou que o paí­s precisa de 64 mil novos imigrantes por ano para sustentar o crescimento económico do país.

A imensa maioria dos imigrantes que chegam à  Europa são jovens. Isto significa que, a médio e longo prazo, a sua contribuição para a economia será bem maior que o gasto inicial com o seu acolhimento e inclusão. Reduzir a média de idade dos cidadãos europeus aumentará a receita fiscal e ajudará à recuperação económica. Só haverá investimento em projectos de maior dimensão se houver procura futura que lhe corresponda.

Por último, para que a imigração seja verdadeiramente útil ao desenvolvimento e ao crescimento económico, serão preciso que os conhecimentos e competências dos que acolhemos sejam utilizados de forma coerente. Se a Europa pretende ser competitiva no mercado global não pode dar-se ao luxo de desbaratar o seu principal trunfo: os recursos humanos.

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Link de acesso ao artigo:

Jornal da Madeira, edição digital de 27/08/2017 in: https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/404/A_imigracao_na_Europa 

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